
Toda vez que um
feminicídio acontece, o país reage com indignação. Nas redes sociais surgem
manifestações de revolta, autoridades prometem endurecer leis e especialistas
analisam o caso sob diversas perspectivas. Passados alguns dias, porém, o
assunto desaparece do debate público — até que uma nova tragédia ocupe o mesmo
espaço. Essa repetição revela algo inquietante: a sociedade ainda não
compreendeu plenamente onde começa o problema.
O feminicídio costuma
ser tratado como uma violência que precisa ser enfrentada pelas mulheres. São
elas que recebem orientações para denunciar, para reconhecer sinais de perigo
ou para buscar proteção institucional.
Embora essas medidas
sejam necessárias, há uma contradição evidente nesse raciocínio: a
responsabilidade pela mudança continua sendo atribuída a quem sofre a
violência, e não a quem a pratica. A verdade, por mais simples que pareça,
raramente é colocada de forma direta no centro do debate: o feminicídio é um
crime cometido majoritariamente por homens.
Se essa é a
realidade, o enfrentamento dessa tragédia precisa começar justamente entre
eles. Durante muito tempo, a violência doméstica foi protegida por uma espécie
de pacto silencioso. Conflitos dentro de casa eram considerados assuntos
privados, muitas vezes tratados com indiferença social.
Esse silêncio
permitiu que comportamentos abusivos se reproduzissem ao longo de gerações sem
sofrer contestação efetiva.
O feminicídio,
entretanto, quase nunca surge de forma repentina. Antes do crime extremo,
existe quase sempre uma sequência de comportamentos que sinalizam o risco:
controle sobre a vida da parceira, ciúme obsessivo, isolamento social, ameaças
ou agressões psicológicas.
Esses sinais
raramente permanecem invisíveis. Amigos, colegas de trabalho ou familiares
costumam perceber mudanças no comportamento do agressor. O problema é que, na
maioria das vezes, ninguém intervém.
Entre homens existe
uma cultura de proteção silenciosa que frequentemente impede o confronto direto
com atitudes abusivas. Comentários que diminuem mulheres, discursos que
associam masculinidade à posse ou ao domínio emocional ainda encontram espaço
em muitos ambientes sociais.
Quando esse
comportamento é tratado como algo banal, cria-se um terreno fértil para que a
violência evolua. Romper esse ciclo exige uma mudança profunda na forma como os
homens se posicionam diante dessas situações.
Combater o
feminicídio não significa apenas apoiar campanhas ou condenar crimes depois que
eles acontecem. Significa questionar comportamentos no momento em que eles
aparecem. Significa recusar a naturalização do ciúme possessivo, da
agressividade como demonstração de autoridade ou da ideia de que relações
afetivas são espaços de controle.
Homens precisam
conversar entre si sobre esse tema. Essa conversa não deve ocorrer apenas em
espaços acadêmicos ou institucionais.
Ela precisa acontecer
nos círculos de amizade, nas famílias, nos ambientes de trabalho e em qualquer
espaço onde se formam referências de comportamento masculino. Quando atitudes
abusivas deixam de ser toleradas nesses ambientes, a cultura que sustenta a
violência começa a perder força.
Existe também uma
dimensão educativa que não pode ser ignorada. Meninos aprendem o que significa
ser homem observando os adultos ao seu redor.
Quando presenciam
modelos baseados em respeito, diálogo e responsabilidade emocional, desenvolvem
uma compreensão mais equilibrada das relações humanas. Quando, ao contrário,
encontram referências de dominação ou agressividade, reproduzem esses padrões no
futuro.
A transformação
cultural necessária para enfrentar o feminicídio passa inevitavelmente por essa
formação. Leis são fundamentais para punir crimes e proteger vítimas, mas
nenhuma legislação, por mais rigorosa que seja, consegue substituir a mudança
de mentalidade que precisa ocorrer dentro da sociedade.
O direito atua depois
que a violência acontece; a cultura tem o poder de impedir que ela se torne
aceitável. O feminicídio não é apenas um problema de segurança pública ou de
política criminal.
Ele revela uma crise
mais profunda na maneira como parte da sociedade ainda compreende relações de
poder, afeto e convivência. Enquanto o enfrentamento dessa violência for
tratado apenas como uma causa das mulheres, a sociedade continuará lidando com
suas consequências sem atacar suas origens.
O combate ao
feminicídio precisa deixar de ser apenas uma pauta de defesa feminina para se
tornar também um compromisso masculino.
Porque, quando homens
se calam diante da violência, o silêncio também se torna parte do problema.
E nenhuma sociedade
que deseja se chamar civilizada pode aceitar que metade de sua população
continue vivendo sob a ameaça de morrer simplesmente por ser mulher.
Por: Clilton Paz.
Artigo de Thiago de
Moraes Procurador, Cientista Político, Jurista, Professor e Jornalista MTB
0091632/SP.